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ZERO HORA: BM tem maioria formada por homens brancos e católicos

Um soldado homem, branco e gaúcho, com Ensino Médio completo e católico, que leva até 30 minutos para se deslocar de casa para o quartel. Ele está satisfeito com o salário, pretende seguir na corporação, apesar de já ter se envolvido em confronto armado e ter sido ferido. Ainda que sinta-se valorizado, está descontente com o plano de carreira. Esse é o perfil da maioria dos quase 18 mil policiais militares do Rio Grande do Sul, conforme revelado pelo primeiro e único censo entre as forças militares estaduais do país.

Mais do que um retrato meramente quantitativo, o trabalho divulgado na sexta-feira busca mostrar que existe diversidade crescente entre os servidores. Tanto é que 16% dizem ter sido vítimas de racismo no exercício da função. Por isso, o chamado censo brigadiano será usado para que se coloque em prática políticas públicas para melhorar o atendimento aos profissionais, visando a qualificação do serviço à população.

Ninguém pode se denominar comandante se não conhece a sua tropa – diz o comandante-geral da Brigada Militar (BM), coronel Rodrigo Mohr Picon.

O trabalho começou a ser desenvolvido em julho pelo Departamento Administrativo da corporação. Com metodologia semelhante à do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e dividido em três etapas, os mais de 240 PMs envolvidos no censo ouviram 17.952 pessoas entre 1º de setembro e 23 de outubro.

A primeira pesquisa desse tipo foi realizada com a finalidade de conhecer a tropa, diagnosticar o ambiente de trabalho e familiar, conhecer a valorização e as dificuldades enfrentadas.

O bem-estar do policial é o bem-estar da sociedade gaúcha – afirma o vice-governador e secretário da Segurança Pública, Ranolfo Vieira Júnior.

O diretor administrativo interino, tenente-coronel Márcio de Azevedo Gonçalves, diz que a próxima etapa será realizar a análise qualitativa dos dados – o que deve ocorrer até 21 de abril – e relacionar com outras polícias e com a população em geral. A ideia, além de fazer um futuro censo, tornando-o periódico, é realizar ações com o governo e parcerias privadas em busca da melhor valorização possível da tropa.

O trabalho já indica duas propostas que o coronel Mohr pretende encaminhar ao Executivo. Uma é o plano de carreira de grau médio, já que 77% dos entrevistados disseram estar insatisfeitos em relação a isso – em três níveis, os vencimentos dos PMs vão de R$ 4,6 a R$ 6,7 mil. A outra é acertar os detalhes sobre moradia própria, como possíveis financiamentos habitacionais, bem como questões envolvendo viaturas e equipamentos em geral.

Radiografia

Os dados mostram que a BM tem 84% de integrantes do gênero masculino e 16%, do feminino. Do total, 44,82% têm nível médio escolar, e 32% possuem no mínimo um curso superior. O trabalho destaca que 72% levam até 30 minutos da casa para o quartel.

Outro dado surpreendente é que a BM tem integrantes de quase todas as unidades da federação: 25 Estados e Distrito Federal. Só não há policial militar de Roraima. Ao todo, 840 são de fora do RS, ou seja, 4,7%. A maioria é soldado, são 12.385, seguidos de 1.814 segundo sargentos. Um dado curioso é que há apenas 18 coronéis, o que também é motivo de insatisfação relacionado ao plano de carreira.

O presidente da Associação de Oficiais da BM, coronel Marcos Beck, ressalta que o censo foi uma ótima iniciativa e espera que o governo tome providências. Porém, Beck diz que o estudo mostra, também, o óbvio: existem vagas em aberto porque o quadro não está sendo reposto.

– Na década de 1990, éramos 7 milhões de pessoas em 185 municípios com cerca de 34 mil brigadianos. Hoje, somos mais de 11 milhões de habitantes em 497 cidades e com um efetivo de menos de 18 mil – salienta Beck.

Segundo o levantamento, 56,2% do efetivo já esteve envolvido com confrontos com criminosos, e 46,5% ficaram feridos. Traduzindo em números absolutos, são 8,3 mil pessoas feridas. Além disso, 8,9% foram agredidos física ou psicologicamente, e 33,5% foram vítimas de injúria, difamação e calúnia.

Levantamento inédito mostra diversidade de raças e credos

O censo mostra que 6% se declararam negros, 13,7% pardos, 0,1% amarelos e indígenas e 80,1% são brancos. Além disso, 16% da tropa diz ter sido vítima de racismo no trabalho, e 14%, durante o período de folga. Sobre religião, a maioria é católica, 56% do total. Outros 20% são evangélicos e 11% não têm religião.

Integrante do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Rio Grande do Sul (Codene), Ubirajara Carvalho ressalta a importância de um trabalho técnico e científico na Brigada, mas diz que as condições de trabalho e equipamento, atendimento médico e avaliação, são fundamentais para se ter um policial preparado para o futuro.

– Precisamos de um policial do século 21, com o Estado dando atenção a esses trabalhadores, com reconhecimento da diversidade da tropa, mas também da sociedade – explica Carvalho, fazendo referência ao racismo na sociedade, que precisa ser combatido.

Primeira mulher no alto escalão da BM, a coronel Cristine Rasbold diz que identificar questões que permeiam as mulheres são fundamentais. O censo, segundo a coronel, é um marco ao revelar os anseios de todos.

– Os dados propiciam identificar quem somos, em busca do aprimoramento – diz Cristine.

Carreira

O presidente da Associação de Praças da BM, Aparício Santellano, salienta a questão do plano de carreira:

– O censo reforça nossas angústias no decorrer dos anos com a insatisfação do pessoal, com plano de carreira que deve ser atualizado.

Se por um lado 77% pretendem seguir atuando na BM, 23% não querem continuar na profissão. Reflexo disso é o que diz Santellano, que 77% estão insatisfeitos com o atual plano de carreira. Desse percentual, 34% se disse muito insatisfeito com a questão. Por isso, esse é um dos projetos prioritários do comando.

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